
Relacionamentos vem e vão. Lamentavelmente, ou não, os relacionamentos se tornaram descartáveis. Na era do Tinder, do Whats, do date virtual, pessoas chegam e partem em nossas vidas a todo momento. E é justamente assim que é. Chegadas e partidas. Quem chega, trás a novidade, o gosto de adolescência, e como dizia minha avó: – “Vassoura Nova Varre Bem”.
Quem parte deixa lembranças, e as fotos dos bons momentos aparecem refrescando a memória. Mas se fosse perfeito, não haveria partidas. Então vamos somando uma série de experiências ruins ao longo da convivência que um dia nos fazem questionar nossos sentimentos. E de fato, sentimento bom não existe mais. O que restou foram as mágoas, a falta de parceria, e os traumas que vamos levar para a terapia.
As vezes os traumas são superados, mas outras vezes, aprendemos a conviver com eles, e conseguimos tê-los como meros conselheiros, como aquela tia idosa, que nos fala sobre os mistérios do amor e da dor, e nos dá suas dicas sobre suas próprias experiências, que tantas vezes nem servem nos dias em que vivemos. E aqui, é justamente o melhor de tudo isso. Ela é só nossa tia, e não nos governa.
Quem sabe justo por isso, não importa o quanto pisaram em seu jardim e apedrejaram suas roseiras, não importa o quanto bagunçaram as suas gavetas, o quanto quebraram seus cristais. Logo ali, antes mesmo que você possa acreditar, surgem aqueles olhos verdes que te seduzem, ou o sorriso que te encanta. Logo aparece alguém cuja risada faz bem para os seus ouvidos. Sabe aquela pessoa para a qual você não quer que o dia acabe? Alguém que te faz relaxar os punhos, tirar a armadura, largar a espada, abandonar o elmo, e abrir o peito para novas feridas.
Sim, “Novas Feridas”, pois por mais amável que seja o hálito do novo amor, o ser humano que irá sussurrar palavras lindas ao seu ouvido, um dia vai te magoar. Calma, tenha calma. Não é necessário sair correndo ao sinal do menor defeito do seu novo amor. As pessoas são assim mesmo. Por qual razão elas são assim? Por que são humanas. Simples assim. Um amontoado de sonhos e desejos temperado com medos e inseguranças que acabam alimentando instintos de fuga, de defesa, garras felinas retráteis que se revelam em palavras que não sabemos de onde vem. Tranquilize seu espírito, com o tempo você saberá separar as pessoas apaixonantes, das pessoas amáveis. E as paixões nem sempre são tão nocivas assim. Viva-as sabendo deixar que partam. Mas quanto as pessoas amáveis, dessas cuide. É nelas que está guardada a próxima história que vale a pena.
Então, saiba que todo novo universo humano que surge em nossa vida, vem com um lado obscuro que não brilha no olhar. É nessa pequena galáxia torta, imperfeita, caótica e cheia de colisões que criam uma infinidade de buracos negros, que moram os traumas. Então, hoje em dia, nós começamos a frequentar pequenas nuvens de anjos chamados de terapeuta. Lá, durante uma hora, ou mais, ou menos, dependendo do tamanho da fila que espera na recepção, vamos revirando sentimentos sobre os quais não somos educados a falar, exteriorizar, confessar e revelar ao mundo. As pessoas que nos chegam, se não nos contam suas próprias histórias, parecem ter vivido a vida toda em uma espécie de “salão de troféus”. Olhando seu carrão, sua moto do ano, suas roupas de marca ou mesmo as joias que douram seu corpo, em bojo, não nos permite perceber seus tombos, suas vergonhas, suas humanidades que tal qual correntes, estão sendo arrastadas pela alma que nos acolhe, ou justamente por isso, é incapaz de nos acolher. Então, é sobre isso que se deve refletir.
Se você não está preparado para contar sua própria história, não deve misturar ela com a do outro. Então vai contar sua história para a terapeuta, porém, aos poucos, naquela sessão semanal, tentando lembrar de coisas importantes para lançar para fora. Mas lembra, somos humanos, e justamente por isso, erramos na escolha do relato, na forma de relatar, e não conseguimos narrativas condizentes com a realidade, em face de nossos limites de português, e por sermos eternamente apaixonados pelas nossas razões, sejam elas verdadeiras ou não. Por outro lado, se não tem maturidade para ouvir a história do outro, como pretende amar?
Porém, ao seu lado, tanto quanto você, chega uma pessoa que por certo ocupará mais do que uma hora de seu dia. Muito provavelmente, se você é do tipo apaixonado, vai acabar percebendo que essa pessoa vai passar os setes dias da semana contigo, e você só vai descansar dela, e ela de você, se combinarem férias conjugais, ou nos momentos que estiverem trabalhando, pois se trabalham juntos, prepara seu fígado, pois a coisa ficou difícil. Daí já é assunto para outro texto.
Como nenhum terapeuta coerente vai morar contigo, dormir ao seu lado para sentir os calorões da menopausa, nem tampouco ouvir o ranger de bruxismo, os seus choros ou os terrores noturnos que te assombram, a novidade da sua vida, essa pessoa que está de chegada, precisa saber de você, e você dela.
Não existe melhor terapia do que a parceria, não existe melhor paga que o amor, nem tampouco existe melhor remédio para a verdade do que a sinceridade. Então, fala-me de ti. Conta-me de seus tropeços, seus pecados e suas vergonhas. Fala pra mim. Deixa-me conhecer os perigos do seu jardim. Eu quero de ouvir. Mostra-me com clareza onde o solo não é fértil, e onde eu preciso cuidar com mais carinho para arar e fecundar a terra. Revela-te mulher. Prepara-me para os dias de chuva, e para resistir as ventanias. Permite-me ser o teu sombreiro nos dias em que o sol for escaldante. Mostra-me em seu corpo suas marcas.
E eu te falarei de um ou outro momento em que deixei de ser cavalheiro, que fui derrubado de minha montaria, ou como centauro, de minhas próprias patas. Eu te explicarei dos amassados em minha armadura, do meu elmo rachado, e te revelaria quem sangrou sob minha espada.
E ao saber de sua história, e você da minha, poderemos não só escrever uma nova história, mas aceitar a história do outro como parte da sua. Seus pecados serão meus, e me orgulharei de suas glórias. Seu passado agora é meu, e o meu também será seu. Compreenderemos então que não existe universo maior do que o nosso, ainda que humano, imperfeito e assustadoramente caótico, é o mais belo que existe. Ainda que cheio de armadilhas, saberei eu onde posso me machucar, e você saber onde estão minhas lâminas, pois não chegamos até aqui, e nos apresentamos um para vida do outro para se ferir. Sei de seus sonhos mais dignos e onde a indignidade lhe ronda, e você conhece meus projetos, dos geniais aos mais malucos. Não faz sentido vestir-se de jardineiro para apedrejar as roseiras. Não faz sentido falar em parceria, para ser sozinho no escuro de suas vergonhas. Não faz sentido viver esperando o dia, a hora, o segundo exato de te dizer EU TE AMO, para calar diante da verdade e viver de mentiras.
Então, fala-me de ti.
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