
E no despertar da semana em que o calendário gira mais uma ano de idade, ao olhar no espelho os cabelos brancos e as rugas que expressam o tempo, o quanto sorri e o quanto chorei, uma necessidade tola de tentar saber tudo sobre o todo, convida a cabeça afoita a perguntar: Quem é você? E essa pergunta não deveria ser roubada pela nossa falta de tempo. Deveríamos ter quinze minutos a mais no espelho para testemunhar nossa existência ao repetir essa pergunta. Mas se Deus fez assim, significa que tenho desperdiçado quinze minutos do meu dia, todos os dias.

E hoje, ao buscar alguma resposta inexata, descobri que sou pior do que queria ser, mas melhor do que pensam os rivais. Sou a união dessas metades que não se encaixam, e se desgastam pela vida, para que um dia pareçam uma coisa só. Como pode o músico e o advogado viverem em paz? Basta que eu não vá com o violão ao fórum e de beca ao palco. Como pode o pretenso pianista arriscar os dedos na marcenaria? Basta ter o mesmo cuidado que se tem com os dedos com a madeira. Sou pai e filho, amigo e amante, rival e concorrente, perfeita imperfeição de quem se entende nos limites que Deus me deu, e também nos lampejos de coragem onde Deus me permite quebrar os limites.

Mas dentre as coisas que não sei, grande parte de tudo isso aliás, enquanto olho os dedos riscados pelo trabalho, pergunto-me por onde me escapou o tempo.
Quantos anos você tem?

Tenho um filho de idade, e tantos amores de vida, apesar de que após se ter um filho, a idade é a eternidade. Sei que terei não só a idade do meu filho, mas dos filhos seus, e depois deles, a idade de todos outros que meu sangue trouxer. Já estou na quinta década de realizações e também de frustrações. Minha idade são acordes no violão e no piano, e o tom rouco da voz pela manhã, ou as vezes os braços que fraquejam ou se superam.

E se me perguntarem onde moro …

Moro no colo desse meu filho, mas toda vez que tenho ele em meu colo, eu moro mesmo é no colo de Deus. Já morei algumas horas na praia em frente ao mar, e em alguns preciosos segundos já morei até sob a água mergulhando nos limites do pulmão. Já morei na rua pelas madrugadas e tive domicílio em algumas mesas de bares que tanto eu gostava. Algumas mesas que agora estão vazias e outras que não existem mais. Já morei no ventre da minha mãe, e na cabeça de alguma mulher. Já habitei o rol da culpa de algo que não fiz, e me livrei de culpas que realmente tinha. Ainda moro em alguns momentos nas lembranças de amigos, mas é inevitável que sem saber esteja de mudança para o futuro de alguém. E tantas vezes morei nas páginas que escrevo, em poesias que dediquei em vão na minha adolescência, nas petições que hoje amarelam no fórum, nas palavras que disse em um ou outro júri, numa página de jornal, ou mesmo no porta retrato sobre a estante de alguma sala.
Com o que eu trabalho?

Trabalho com meus limites, minhas vergonhas. Trabalho com desafios que me proponho a vencer, e por algumas vezes, trabalho com a frustração de não ter conseguido. Às vezes sou obrigado a trabalhar com o orgulho dessa ou daquela vitória, pois a grande obra e o grande trabalho, é exatamente esse peito que guarda meu fôlego e minhas emoções. O grande trabalho é a lapidação desse caráter, por vezes indomável, e noutras submisso e abnegado. Sim, eu já trabalhei com notas e harmonias, madeiras e parafusos, palavras e espaços, ideias e conceitos, sentimentos e morbidez, alegrias e tristezas. E exatamente por isso, após olhar quinze minutos no espelho, um sorriso molhado me permite entender sem qualquer certeza.

Esse é o tipo de perguntar que deve se fazer a todo o tempo. Quem é você? E por mais incoerente que possa parecer, deve se fazer essa pergunta sem desejar encontrar qualquer perfeição na resposta.
Enquanto tantas vezes eu trabalhava em um acorde, o dedo que sobrava em dissonância passava desapercebido pelo público. Mas eu sei que errei. Outras vezes eu adicionava à harmonia a décima primeira, e embora o público apenas suspirasse sem notar o motivo, eu sabia onde estava a diferença.

Como naquela mesa que fiz em minhas aventuras de marceneiro. Embora os olhos admirassem a obra como se fosse quase perfeita, eu sabia exatamente onde eu havia usado massa para cobrir a escorregada da serra. Eu saiba exatamente onde havia acabado o selador e onde uma mão a mais de lixa foi necessária. Também sabia onde eu havia acertado um ângulo de forma surpreendente.
E quanto as palavras?

Embora alguém possa até gostar deste ou daquele texto que eu escrevi, sei o quanto era maior e mais significativo o motivo que me pôs a escrever. Mas as palavras quem sabem me ajudem nessa manhã de perguntas.
Quem sabe eu tenha de idade exatamente o número de textos que você leu aqui.
Quem sabe eu trabalhe exatamente com as mesmas coisas que você.
Quem sabe eu more nesse blogue.
Mas com certeza, por esses instantes que se passaram enquanto você lia, eu morei em seus pensamentos.
Então, obrigado pela hospitalidade.

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