QUEM SOU EU?

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O leitor me faz um velho senhor sentado em uma velha escrivaninha de jacarandá, escrevendo linha por linha. De cabelos brancos e mãos enrugadas, arrastando tamancos, que entre charutos e baforadas, escreve coisas embriagadas pela filosofia do dia, com um tempero de ironia, que na garganta denuncia um nó, um nó denuncia. E no quarto cheirando a pó, meio escuro durante o dia, em ambiente seguro, corta um fio de luz perfeito, que pelo vão estreito da cortina, o pano de linho é feito, refletem sobre a página vazia, e um outro facho de luz num pedaço do dia no meu peito.

Não, não uso caneta de pena, nem tampouco escrivaninha, essa cena não é minha. Já escrevi poesias na areia de letra feia, e crônicas que julguei belas, usando Word mesmo para elas. Tenho cabelos grisalhos, a barca completamente branca, palavra franca, e um bigode suave que insiste em resistir ao tempo castanho, por mais estranho, como se fosse pintado para fugir da velhice – mas que tolice.

Velho? Sou velho demais para pequenas discussões sobre assuntos de pequena importância. Abandonei as ilusões e a ignorância. Mas sou jovem o suficiente para planejar excursões de motocicleta, e fazer de um destino a minha meta, e com pouca bagagem e nenhum conforto, saio eu em viagem, ainda que por vezes isso me deixe meio torto. Sou jovem ainda para cometer erros de julgamento, sem sofrimento, e velho o bastante para rir desses meus erros, meus desterros, desde que eles não prejudiquem ninguém – o retorno sempre vem. Se faço mal para alguém, choro como criança, mas ainda com a esperança de ser “um bom alguém”. Eu me apaixono como adolescente, rezo como crente, e falo sobre o amor como um ancião, às vezes com dor no coração. E nesse paradoxo eu me encontro, estou pronto, inacabado e equivocado, e vivo com tranquilidade, domino minha saudade, e ainda que eu quisesse voltar para a minha mocidade, volto à realidade. Se me perguntarem se eu trocaria, num ato de ousadia. a juventude pela plenitude que tenho nesse dia, pelo que me ensinou minha idade, com serenidade eu responderia – Jamais! Sem minhas lições aprendidas e sofridas, que me livram de meus grilhões, não voltaria atrás. Jamais!

Esse sou eu, com o que Deus me deu. De tempos em tempos me percebo em tempestades, cometendo iniquidades, na alma sem calma, de minha garganta saem trovões e palavrões, e pronto. Na explosão fico tonto. Eu não sou assim? Como isso surge em mim? Então, eu que as vezes escrevo sentado no Bar do Lago no Barigui, eu confesso aqui, escrevendo sem culpa, inspirado pela luz do sol no copo de cerveja sobre a mesa, consigo refletir. Além de todo esse paradoxal e caótico amontoado de células, sou eu também uma biblioteca de equações, e tão exata como uma equação de primeiro grau, nesse meu lado meio animal, as vezes sou coração, e como tal, a prova viva da ação e reação. Mas logo depois da explosão, peço perdão, coloco os pés no chão, e me coloco no prumo, retorno ao meu rumo, se errei assumo, e sumo, desapareço, eu me recomponho e cresço. Sou o que mereço, e se às vezes desço ao chão sem razão, em reação a uma provocação, logo apresento meu pedido de perdão. Sim, tenho um bom coração.

Esse sou eu. Muito eu…


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