Eu tentei ser sólido. Queria a impavidez dos monumentos, e a certeza absoluta do lugar que ocupo. Mas me perdi e me encontrei. Resolvi então me confessar setenta por cento água, e dela me inspirei para ser fluído. Aceitar o destino sem hesitar. Passar pelo leito da vida sem perder a arte que me foi caprichosamente pintada em telas às margens do leito por onde escorro e me deito. Eu me confessei água, amante do mar, embora tenha aprendido como ancião a colocar os pés na areia.
Eu tentei ser sólido. Queria ser a força do tato, e o limite da ponta dos meus dedos e o que eles ousam alcançar. Mas me desacertei e me corrigi. Decidi então me confessar líquido, e do líquido me inspirei para ser livre. Aceitei meus limites com a serenidade dos lagos, que esperam a próxima torrente para transbordar as margens, quebrar as regras, e me espalhar. Tenho nas profundezas das águas os meus segredos que não haverá de conhecer qualquer mulher antes que aceite perder o fôlego. Eu me fiz úmido, nas lágrimas salgadas que engoli na minha opção de ser homem e sustentar em minha superfície o orgulho de o ser verdadeiramente.

Eu tentei ser sólido. Queria a eternidade da pedra, e o poder contundente do peso. Mas me desviei e realinhei. Percebi então que amo a eternidade do líquido, que evapora, sobe ao céu, e retorna ao chão para existir novamente. A eternidade humilde de se desfazer no ar para tornar a existir. Encontrar na ausência a inspiração para esperar, aguardar as monções como fazem os que vivem na seca por oito meses. E eu desapareço então em minhas palavras, em minhas fraquezas, e sigo com o vento que inaugura um novo aprendizado, novas ideias, uma nova maneira de lidar com minhas imperfeições e a minha falta de controle com as coisas do destino.
Eu realmente queria ser sólido. Queria que os olhos que me acertam pasmassem diante de minha incólume, poderosa e inusitada criação. Encontrei-me mesmo então, foi escorrendo, neste momento com mais força, levando no peito o que eu tanto queria e admirava, deixando aos cantos, às bordas, os restos do que não me agrada, tudo aquilo que não faz parte de mim. E me confessei água. Decepcionei a mulher que me queria eternamente eu, para ousar tentar a cada momento, buscar a mim, renovar as justificativas de minha existência. Busco agora aceitar o inenarrável poder da água de ocupar qualquer espaço, de qualquer forma, e ali se acomodar, até virar vapor, e subir ao céu para voar em nuvens. Navegar em si mesmo, e tomar um rumo ao meu incontrolável e inevitável destino, e saciar a minha sede de vida, e voltar ao mar, de onde vim, e para onde irei, no colo da chuva, com a calma do tempo. Inevitável e inesgotável mar. Meu princípio e meu fim.

30 de janeiro de 2012
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