
Dentre os tolos que morreram de amor, muitos deixaram versos e rimas para falar de uma mulher. Recitaram fervorosos sentimentos, arrebatadoras emoções com os pés longe do chão. As mãos no ar bailavam longe do tato, órfãs. Acariciavam o nada. E se digo tolos, que não me falte o respeito, é por ter quase certeza, nessa minha insensatez, de que encontrei alguma razão em meus amores.
Não morro de amores. Eu prefiro que os amores me mantenham vivo.
Não me entrego a um amor. Eu prefiro amar tudo que me entregam.
Não faço versos de amor. Eu prefiro que o amor venha sem rimas, imperfeito e natural.
Prefiro amores sem medidas, incertos e presentes, intensos e frágeis, pessoais e comuns a tudo o que me cerca. E assim amei mais de uma mulher. Em momentos diversos ou num só segundo. Já amei em pecado, e cultuei amores platônicos. Nem tudo que amo precisa ser meu. Amar o que é seu é muito amor próprio para ser amor em sua plenitude. Já tive amores impróprios, pra mim e para menores. Já tive amores fúlgidos e sem qualquer cor. Nem aquele melhor nem este pior.
E eu, de tanto amor, tornei-me infiel de um só. Amo tudo que me envolve, tudo que a vida me traz. Amo a ideia de amar sem padrões, sem rimas e sem versos. Amo por amar, e dedico-me ao que amo certas vezes por amor próprio.
Sou um daqueles que amou por um segundo, ou por anos e anos sem fim. Tenho meus amores de uma vida inteira e aqueles fugazes. Amores confessos e incontáveis. Amores que queimam e outros que gelam, turbulentos e serenos. Amores amargos, doces e até sem qualquer sabor. Já me deleitei com amores de verão, e me aqueci com o amor no inverno. E esse ou aquele se arrastou gostoso por outonos e primaveras.
Por isso me permito amar sem compromisso, sem fazer versos. Deixei de lado o entusiasta dos sentimentos, para ser um observador das emoções. Por isso permito que ela frequente meus dias sem compromisso. Dou-lhe o visto para passear em meus sonhos. Permito sem medo que ela risque a pintura do meu dia, com suas passagens rápidas e cortantes. Permito que ela me roube noites, invada meus sonhos ou me mantenha acordado. Permito que o dia amanheça sem a promessa da tarde, sem o compromisso de sonhar durante a noite. Apenas amo. Sem verso. Apenas amo do meu jeito.
Texto de 22 de março de 2009
Deixe um comentário